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"Entrelaçamentos Simbólicos" © Eduardo Galvani

 

ENTRELAÇAMENTOS SIMBÓLICOS
E A NOÇÃO DE IDENTIDADE

por Eduardo Galvani
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Symbolic Interlacements - And the notion of Identity

Abstract: Through this essay, I try to understand some aspects of the modes of symbolic appropriation and representation that may influence the process of human’s individual identity constitution in different historical and socio-cultural contexts. The notion of 'symbolic interlacements' is proposed and developed here by representing a key feature of this process, as exemplified within the text.

Keywords: Cultural Anthropology, Psychology, Symbolism, Interpretivism.

 

Através deste ensaio, busca-se compreender alguns aspectos dos modos de apropriação e de representação simbólica que podem influenciar no processo de constituição das identidades dos indivíduos humanos em diferentes contextos históricos e sócio-culturais. A noção de “entrelaçamentos simbólicos” é formulada aqui por representar uma característica fundamental deste processo, conforme exemplificado no texto.

As principais referências teóricas utilizadas neste ensaio são os textos “Do Kamo: a pessoa e o mito no mundo melanesio”, de Maurice Leenhardt, “Uma Categoria do Espírito Humano: A Noção de Pessoa, a de Eu”, de Marcel Mauss, “O Gênero da Dávida”, de Marilyn Strathern, “A Metrópole e a Vida Mental”, de Georg Simmel, “A Invenção da Cultura”, de Roy Wagner e “O Local da Cultura - Interrogando a Identidade”, de Homi K. Bhabha, a partir das quais, ao investigar e relacionar as noções destes autores acerca dos processos individuais ou sociais da constituição identitária dos indivíduos humanos, fundamenta-se e desenvolve-se o princípio de “entrelaçamento simbólico” com uma análise dos modos e das condições em que este fenômeno pode ocorrer.

 

A NOÇÃO DE IDENTIDADE

 

A noção de “Identidade” é considerada fundamental nas ciências humanas por representar um aspecto ao mesmo tempo ambíguo e essencial da vida dos indivíduos humanos. E apesar de que a “Identidade” contrapõe-se ao conceito de “Coletividade”, estes elementos são interdependentes, conforme demonstram algumas teorias que veremos a seguir. Além disso, ao estudar os processos sociais que possibilitam o desenvolvimento das identidades individuais, será possível compreender melhor as dinâmicas de constituição, de organização e de funcionamento dos grupos humanos — culturas, etnias, sociedades, nações — e também as origens e os fundamentos do próprio conceito universal de humanidade.

Apesar de que pode-se simplificar a noção de Identidade enquanto um conjunto de qualidades ou atributos tangíveis e intangíveis que caracterizam determinada representação social de um indivíduo humano, algumas teorias da Antropologia, da Sociologia e da Psicologia podem contribuir para ampliar o conhecimento acerca deste conceito. Para compreender melhor a noção de Identidade, vamos portanto estudar os principais aspectos que influenciam em seus processos de constituição.

Em primeiro lugar, é interessante compreender melhor a noção de “personalidade”, pois assim será possível perceber porque esta é uma característica individual que influencia na formação da Identidade. O psiquiatra e neurocientista brasileiro Diogo Lara demonstra em seu livro “Temperamento Forte e Bipolaridade” o modo com que algumas teorias da ciência psicológica contemporânea classificam características mentais que parecem determinantes no processo de constituição da personalidade humana. De acordo com esta classificação, a personalidade constitui-se pela combinação do “temperamento” e do “caráter” de cada indivíduo em função do acúmulo das suas experiências — ou vivências — em sua memória. O temperamento, por sua vez, é regido ou regulado pelo humor, e influencia no modo com que cada ser humano é capaz de reagir aos estímulos (naturais ou artificiais, subjetivos ou externos a ele) em cada situação. O caráter, por sua vez, é uma característica que se constitui a partir das escolhas do próprio indivíduo, pelo sentido e pelo modo de sua reação em cada situação vivenciada. Deste modo, a personalidade de cada pessoa constitui-se ao longo do tempo pelos “reflexos” dos seus próprios atos, ou seja, pelo acúmulo das suas escolhas e experiências, objetivas ou subjetivas, na sua memória individual e na “memória” ou “história” social.

A partir destas noções, sobre a influência do humor e do caráter nos processos sócio-psicológicos de constituição da personalidade humana, é possível já ter uma ideia básica dos modos com que a Identidade constitui-se através da personalidade de cada indivíduo, entretanto, um importante pressuposto deste ensaio é que a Identidade é também um aspecto social, portanto, construída através das constantes relações entre o indivíduo e os contextos sociais com os quais este se relaciona. Veremos a seguir, em algumas teorias da Sociologia e da Antropologia, de que modo determinadas formas de apropriação e de representação simbólica — que também ocorrem e variam conforme o meio social, o temperamento e o caráter de cada indivíduo — podem, portanto, contribuir com a constituição simultânea da sua personalidade e da sua identidade no meio social.

Em “Educação e Sociologia”, onde investiga as maneiras com que as práticas de transmissão de conhecimento influenciam nos processos de civilização, o sociólogo francês Émile Durkheim afirma que a realização da Identidade individual humana conforme a concebemos apenas é possível através da vida coletiva ou em sociedade, pois é imprescindível a existência de um grupo para que seja possível então ocorrer a diferenciação ou a atribuição de uma identidade a seus elementos. Assim, a constituição da Identidade individual é possível apenas quando pode-se diferenciar as características individuais que contribuem no processo de formação de tal Identidade, deste modo, a vida em grupo ou em sociedade torna-se uma condição essencial neste processo, e o meio social é portanto um elemento fundamental para a possibilidade de desenvolvimento das Identidades. Estudaremos a seguir outros aspectos sócio-antropológicos que demonstram o modo com que determinadas características do ambiente social, associadas ao humor e ao caráter pessoal de cada indivíduo, podem influenciar nos processos da constituição identitária.

A partir das noções de “sociedades quentes” e “sociedades frias”, desenvolvidas pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, é possível tentar compreender de que maneira os graus de complexidade e de desenvolvimento sócio-cultural dos indivíduos estão diretamente associados aos graus de complexidade e de desenvolvimento sócio-cultural dos meios sociais que estes frequentam. As distinções contextuais destes modelos de sociedade formulados por Strauss permitem observar, por exemplo, que enquanto alguns indivíduos, grupos, sociedades ou nações parecem acumular, desenvolver, transmitir e aplicar cada vez mais conhecimento em um período menor de tempo, outros parecem manter seus níveis de conhecimento ou formas de interação com o mundo material (ciências, artes, técnicas e tecnologias) de forma inalterada por períodos mais prolongados de tempo. É possível observar também a noção de que alguns indivíduos, grupos, sociedades ou nações parecem desenvolver mais o conhecimento, a ciência e a subjetividade abstrata, sem alterar tanto a realidade material que os circunda, e outros que parecem modificar mais esta realidade material e priorizar menos o desenvolvimento subjetivo, simbólico, abstrato, científico imaterial e intelectual. Entretanto, apesar destas possíveis variações contextuais, são estes graus de complexidade e estas características de funcionamento das estruturas sócio-culturais de um determinado contexto que influenciam de forma direta na “condição de vida” dos indivíduos, e, por consequência, influenciam também nos processos de formação de suas próprias identidades.

A teoria de Lévi-Strauss, sobre as “sociedades quentes” e “sociedades frias”, fomenta um importante debate antropológico a respeito das origens destas diferenças, porém, as principais vertentes da Antropologia Cultural Contemporânea parecem defender que, de um modo geral, todos os tipos de indivíduos humanos, pertencentes a qualquer grupo, raça, cultura, sociedade ou etnia, possuem condições relativamente iguais em capacidades biológicas e cognitivas, portanto, compreende-se que as distinções sócio-culturais de cada contexto têm origem em fatores históricos. O próprio Lévi-Strauss desenvolveu uma análise comparativa da estrutura geral dos mitos, a partir da qual ele pôde identificar determinadas semelhanças estruturais entre os mitos que estudou, capazes de sugerir que os processos mentais, formas de cognição ou de pensamento humano são de fato bastante similares ou equivalentes em qualquer grupo, cultura, etnia, raça, sociedade ou região do planeta. Esta análise de Strauus está publicada em seu livro “Mitológicas”.

Além disso, as influências que os contextos históricos e sócio-culturais exercem nas “condições de vida” dos indivíduos, entretanto, tornam-se ainda mais evidentes a partir de uma análise comparativa entre numerosos estudos antropológicos já realizados com diferentes grupos humanos ao redor do planeta, através da qual, é possível observar, por exemplo, uma importante distinção para esta análise, no modo com que as noções de “Pessoa” e de “Identidade” desenvolvem-se entre os indivíduos em contextos diferentes. Nas sociedades ditas mais “simples”, onde encontrou-se um padrão de desenvolvimento histórico-cultural mais vagaroso, homogêneo e linear, as ambições e as agências individuais parecem mais restritas, pois condicionam-se às realidades culturais e materiais fornecidas pela estrutura sócio-cultural daquele contexto, onde as possibilidades e oportunidades de participação na dinâmica coletiva daquela sociedade são menos numerosas do que nas sociedades maiores, mais complexas e com uma estrutura que privilegia o desenvolvimento histórico multicultural, onde a variedade e a sobreposição mais acelerada de eventos e de conteúdos sócio-culturais criam contextos que potencializam e amplificam as possibilidades de realização de outras formas de identidade individual. Desta maneira, percebe-se novamente que os princípios de funcionamento da estrutura sócio-cultural manifestam-se, portanto, em graus e modos distintos, conforme cada contexto.

A partir destas concepções, é possível entender que as “condições de vida”, determinadas pela realidade histórica e material do contexto sócio-cultural, influenciam nos processos de constituição da identidade a partir de suas influências diretas sobre o comportamento ou habitusethos, hexis e eidos — dos indivíduos, conforme também sugere Pierre Bourideu em “Escritos de Educação”, onde, ao tentar compreender de que maneiras as estruturas e o funcionamento dos sistemas educacionais tradicionais e conservadores tendem a refletir os valores e as hierarquias da própria sociedade onde estes estão inseridos — e assim contribuem para a manutenção das desigualdades sociais em tal contexto —, Bourdieu demonstra que um dos principais fatores que fazem com que estes modelos convencionais e conservadores de sistemas educacionais contribuam com a reprodução da estrutura e das desigualdades sociais, está relacionado ao fato de que os ambientes escolares e os métodos de ensino utilizados ainda permitem que a origem e as capacidades sócio-culturais e familiares dos alunos tenham grande influência no modo com que cada qual é capaz de apropriar-se, de absorver e de assimilar ou de simbolizar o conteúdo escolar. Assim, através da observação das relações de cumplicidade entre a própria agência dos indivíduos e a estrutura social, percebe-se de que modo os fatores sócio-culturais são importantes e podem influenciar na condição de vida e na formação da identidade dos indivíduos. Esta noção de Bourdieu, acerca das formas de apropriação e de simbolização do conteúdo cultural durante o período escolar, exemplificam também o modo com que os indivíduos podem realizar este mesmo processo de apropriação e de simbolização dos conteúdos culturais na sociedade durante as outras fases ou contextos de suas vidas.

Assim, ao entender a importância das influências que os conteúdos culturais podem exercer sobre o processo de desenvolvimento da identidade individual, é importante destacar aqui que, apesar de que o conceito de cultura é geralmente associado a fenômenos e propriedades de caráter coletivo ou social da vida humana, os elementos, atributos e valores — tangíveis ou intangíveis — compositivos da cultura humana podem ser assimilados também em transfigurações individuais — nas dimensões subjetiva ou objetiva — conforme sugere Roy Wagner em “A Invenção da Cultura”.

…assim, a definição (do significado de um elemento cultural) acaba sendo um exercício de afirmação ou ajuste do ponto de vista cultural do próprio definidor, de suas prioridades e convenções de comunicação.” (Roy Wagner p. 114).

Portanto, a partir da compreensão das influências históricas e sócio-culturais na “condição de vida” e, por consequência, nos processos de formação da Identidade dos indivíduos, é possível ainda ampliar nossa análise para aprofundar o conhecimento acerca de outros fenômenos que podem revelar características importantes destes mesmos processos. Algumas análises antropológicas são capazes de demonstrar, por exemplo, de que maneira a noção de Identidade transcende a ideia de corpo físico. Em “Do Kamo. La personne et le mythe dans le monde mélanésien” (Do Kamo, a pessoa e o mito no mundo melanésio), o etnólogo francês Maurice Leenhardt produz uma ampla investigação dos aspectos éticos e estéticos individuais, e de suas contribuições, promovidas em conjunto com as condições e relações de proximidade ou de distanciamento dos elementos naturais e culturais, nos processos de subjetivação de valores que influenciam no desenvolvimento da noção de pessoa ou nas identidades dos indivíduos.

Leenhardt observa também o fato de que as linguagens possibilitam a criação — a partir de elementos e de fenômenos naturais — e a transmissão dos mitos, e de que modo estes mitos são assimilados em um momento posterior — conforme as aptidões culturais, corporais e estéticas de cada indivíduo — durante as relações vivenciadas por ele em sua vida social, e incorporados por ele mesmo (e pelos outros) às noções subjetivas que constituem a noção de pessoa ou Identidade, enquanto um aspecto cultural dissociado do próprio corpo físico:

El yo psicológico y el cuerpo físico no se corresponden siempre. Su yo no tiene estabilidad. ¿Cómo podría preguntarse y decretar: esto está aquí, delante, detrás, acá? Lejos estoy de ensayar con esto un j\lego. El melanesio ilustra esta posición incierta de su yo cuando cuenta una leyenda.” (Maurice Leenhardt, p. 94).


Esta análise de Leenhardt nos permite compreender melhor que a noção de Identidade representa um aspecto cultural pertencente ao mesmo tempo à dimensão subjetiva e pessoal, e também à dimensão coletiva e social, e que suas variações, em ambas as dimensões, correspondem-se simultaneamente: qualquer transformação ou novo atributo incorporado — ou removido — de forma subjetiva da noção de Identidade do indivíduo, pode influenciar de forma objetiva no seu comportamento — ou habitus —, que, por consequência, será refletido também no âmbito coletivo e social. Portanto, é possível compreender a noção de “entrelaçamento simbólico” enquanto um aspecto fundamental do processo mútuo entre o desenvolvimento individual e o desenvolvimento social, que resulta na associação constante — ou no entrelaçamento constante de valores simbólicos —, através das “apropriações identitárias” intencionais e das assimilações ou simbolizações culturais, realizadas nas dimensões objetivas e subjetivas próprias de cada indivíduo, e das expressões e representações simbólicas manifestas nas dimensões sociais coletivas que estruturam a Identidade de cada indivíduo. Ou seja, o “entrelaçamento simbólico” ocorre toda vez que elementos, valores, atributos ou características culturais identitárias são assimiladas ou interpretadas a partir de um elemento cultural objetivo e associadas pelo indivíduo (ou pelos outros indivíduos do coletivo social) à sua Identidade. Assim, uma “apropriação identitária” pode representar qualquer atitude intencional de “entrelaçamento simbólico”.

 

ENTRELAÇAMENTOS SIMBÓLICOS

 

Para compreender melhor a maneira com que os “entrelaçamentos simbólicos” podem ocorrer — e influenciar na formação das identidades individuais —, podemos recorrer também ao clássico conceito filosófico de “dialética”, através do qual compreende-se que enquanto um indivíduo percebe, age ou relaciona-se com determinados contextos da estrutura social, a estrutura social, ao mesmo tempo “reage” e “percebe” o indivíduo.

Esta concepção de dialética “caracteriza-se por considerar, num primeiro plano, a unidade e a interdependência de todos os fenômenos, e a ver todas as antíteses como fases ou momentos de um processo.” (BLEGER, 1989, p. 20) Ou seja, considerando que o desenvolvimento e a constituição dos aspectos biológicos, sociais e culturais humanos ocorrem através de constantes processos físicos e psíquicos, estimulados por esta relação contínua reconhecida por “dialética”, ou “caminho entre as ideias”, na concepção grega do termo — a interação (material ou imaterial) “dialógica" com infinitas modalidades de troca que podem ocorrer entre as coisas e as ideias, entre um ou mais seres humanos, ou ainda entre os humanos e todas as outras dimensões da realidade com que estes se relacionam — as capacidades psicológicas e cognitivas, os sentidos (visão, audição, olfato, tato e paladar) e as linguagens, tanto verbais quanto as outras técnicas ou aptidões corporais, são instrumentos fundamentais pelos quais os indivíduos podem promover e experimentar a relação dialética nas dimensões objetivas, materiais e práticas, e também nas dimensões subjetivas e simbólicas da realidade, e por meio destas capacidades é que ocorrem os processos objetivos e subjetivos do “entrelaçamento simbólico”.

Para compreender melhor a influência dos “entrelaçamentos simbólicos” nos processos sociais de constituição identitária individual, e também para exemplificar a condição ambígua do conceito de Identidade, vamos analisar as noções desenvolvidas pelo filósofo Homi K. Bhabha em “O Local da Cultura - Interrogando a Identidade”, onde, com base nas teorias do psicólogo francês Franz Fanon, Bhabha sugere que a Identidade, enquanto representação do “Eu verdadeiro”, manifesta-se na condição de “aspecto cultural individual” apenas em âmbito subjetivo e pessoal, e que esta Identidade é evidenciada no momento do encontro com o “Outro” — qualquer modo de alteridade — na forma de uma consciência que “nega” ou “contrapõe-se” a esta alteridade no intuito de diferenciar-se dela para produzir assim uma “Identidade primordial, cultural ou psíquica, capaz de significar (ou de resignificar) os elementos e fenômenos culturais nas dimensões simbólicas, linguísticas e históricas.” Bhabha, Homi (p.10).

Se o sujeito do desejo nunca é simplesmente um “Eu Mesmo”, então o “Outro” nunca é simplesmente um “Aquilo Mesmo”, uma frente de identidade, verdade ou equívoco.” Homi K. Bhabha (p.10).

Assim, percebe-se a ambiguidade inerente ao conceito de Identidade quando considera-se a distinção entre uma “Identidade Social” (O Eu na visão dos outros) e uma “Identidade Pessoal” (o Eu Verdadeiro, ao qual, de acordo com Bhabha, apenas o próprio indivíduo é capaz de reconhecer), e que a Identidade Social, portanto, será sempre um elemento relativo aos contextos com os quais o indivíduo se relaciona.

Algumas teorias investigam os processos históricos que deram origem aos conceitos de “Indivíduo” e de “Pessoa”, e através delas, é possível observar características destes processos que demonstram de que modo estas noções foram elaboradas a partir de uma sucessão de “entrelaçamentos simbólicos” entre os seres humanos, a realidade e a própria consciência — percepções, noções e reflexões — que ao longo do tempo desenvolveram de si mesmos. Para um entendimento a respeito dos processos de desenvolvimento da consciência individual, e por entender que o próprio conceito de Indivíduo nem sempre representa exatamente a mesma noção nas concepções teóricas elaboradas ao longo do tempo acerca do Ser Humano (diferentes interpretações possíveis deste conceito variam conforme o contexto teórico, histórico e social), investigaremos a seguir etapas que podem ser consideradas algumas das principais no processo de desenvolvimento do que se considera o conceito de Indivíduo, a partir de teorias acerca do desenvolvimento da própria “consciência individual”, conforme algumas das concepções mais difundidas pela Antropologia e pelas ciências humanas, com referência nas suas prováveis causas de origem — em virtude de transformações sociais ocorridas durante a Idade Média —, até a sua condição e concepções mais contemporâneas.

Em “Die Kultur der Renaissance in Italien” (A Cultura do Renascimento na Itália), o historiador e filósofo suíço Jacob Burckhardt expõe alguns dos principais acontecimentos políticos ocorridos em cidades européias que teriam estimulado o desenvolvimento da consciência humana individual a partir do séc. XIII. Burckhardt afirma que, durante o período obscurantista da Idade Média, em especial nas regiões sob domínio dos governos despóticos e tirânicos, em virtude das características do tipo de configuração social, onde a organização das instituições e o poder político exerciam grande influência sobre o comportamento de seus habitantes, havia o predomínio de uma consciência humana que se desenvolvia mais conformada com o senso de coletividade, pois nestes locais, os indivíduos costumavam agir prioritariamente em função dos vínculos sociais estabelecidos através das entidades e das instituições que eram mais comuns entre os cidadãos: a religião, as corporações, a família, a nação, por exemplo.

Conforme a análise de Burckhardt, entretanto, apesar de alguns aspectos da consciência humana individual terem sido desenvolvidos de forma isolada mesmo sob estas circunstâncias sociais — onde havia o predomínio do senso de coletividade e das condições adversas impostas por estes regimes autoritários de governo —, foi a partir das influências históricas de processos sócio-culturais que promoveram a separação entre os poderes do Estado e da Igreja — quando os habitantes das cidades república puderam então vislumbrar novas possibilidades de atividade social e promover com maior autonomia o desenvolvimento de vínculos sociais ideológicos através de partidos políticos e de elementos culturais —, que este tipo de consciência individual desenvolveu-se com maior amplitude e em novas configurações. A influência destes acontecimentos na vida dos habitantes teria estimulado, além do desenvolvimento da consciência individual, também o surgimento de algumas variações da personalidade individual: indivíduos considerados multifacetados, cosmopolitas e universais, por exemplo, que também representam importantes etapas do desenvolvimento da consciência individual, ou expressões do pensamento humanista universal.

Além desta análise de Burckhardt, outras teorias demonstram ainda que, apesar de o conceito de “Indivíduo” ser utilizado conforme a pertinência das relações contextuais, um conceito bastante importante e recorrente na representação do Ser Humano enquanto um animal biológico, cultural, individual e social, é o de “Pessoa”. No texto “Une catégorie de l'esprit humain: la notion de personne celle de ‘moi’" (Uma Categoria do Espírito Humano: A noção de Pessoa, a noção do “Eu”), o antropólogo francês Marcel Mauss produz uma extensa análise do desenvolvimento, da constituição e das formas de representação das identidades individuais em diferentes grupos e sociedades humanas, e demonstra também as respectivas influências deste processo na origem do conceito de “Pessoa” enquanto uma categoria das ciências humanas contemporâneas. Em sua teoria, Mauss descreve que algumas culturas e ideologias milenares, observáveis especialmente em sociedades da Índia e da China, compreendem o “Eu” enquanto indivíduo ou pessoa autônoma possuidora de características singulares e também dotada de uma noção de totalidade que a conecta à sua natureza social e holística, à coletividade dos indivíduos humanos, aos demais animais e a todo o universo.

Mauss demonstra também as maneiras com que a concepção contemporânea de “Pessoa”, enquanto indivíduo auto-consciente, autônomo, independente e responsável por si, desenvolve-se sob a influência de algumas culturas indígenas: Ao estudar aspectos sócio-culturais de tribos do noroeste americano, por exemplo, Mauss sugere que, nestes locais, a constituição da identidade, que representa os aspectos pessoais dos indivíduos, ocorre sob influência de algumas tradições: Além da utilização de nomes e sobrenomes familiares, e do uso de pronomes específicos para a identificação dos indivíduos — que transmitem a eles determinados valores morais e os classificam em tribos ou posições sociais específicas —, nestes mesmos locais, a prática de rituais religiosos com uso de máscaras e a possibilidade de interpretação de funções temporárias nos cerimoniais, teria originado a noção social de personagem, noção que seria transmitida posteriormente, sob os mesmos aspectos, ao conceito de “Pessoa” enquanto indivíduo portador de uma identidade singular e representante de uma determinada posição ou função social real. O próprio termo “persona”, de acordo com a investigação de Mauss, teria origem no conceito latino “per/sonare”, uma alusão à máscara através da qual soa a voz do ator. Entretanto, conforme sugere Mauss, a partir destas formulações mais primitivas, o conceito de “Pessoa” teria posteriormente evoluído para um conceito mais complexo, fundamentado no desenvolvimento da Ética na Filosofia gregas, e também na invenção do Direito Romano. De acordo com seus estudos, as noções de consciência e de moral que a filosofia greco-romana identificou no voluntarismo estóico teriam influenciado a origem da definição da “Pessoa” enquanto um indivíduo auto-consciente dos seus deveres, direitos e privilégios sociais, e também da natureza moral de seus atos.

Mauss demonstra ainda que algumas teorias filosóficas mais recentes teriam contribuído para uma concepção ainda mais aprimorada do conceito de “Pessoa” enquanto entidade representativa da “Razão Prática”. Conforme definiu o filósofo Imanuel Kant, a “Razão Prática” seria uma tradução da essência formal da dualidade constitutiva das consciências humana e divina enquanto entidade praticante da ação. E a partir destas noções teóricas de Kant, as teorias do também filósofo alemão Johann Fitche contribuem com o aprimoramento e a ampliação das concepções acerca do conceito de “Pessoa” através da noção de “Razão Pura”, a qual representa os aspectos metafísicos, a racionalidade e a natureza original e essencial do pensamento humano. Assim, a “Pessoa” constitui-se através de uma relação permanente entre a “Razão Pura” e a “Razão Prática”.

Deste modo, após compreender melhor a noção de dialética, investigar as transformações sociais que influenciaram o desenvolvimento da consciência individual e acompanhar na teoria de Mauss os principais processos histórico-sociais que sugerem múltiplos “entrelaçamentos simbólicos” entre a subjetividade humana e os próprios elementos naturais ou artificiais que a humanidade desenvolveu ao longo do tempo, percebe-se de que, modo as Identidades individuais podem ser estruturadas também a partir da noção de “Pessoa”, enquanto uma síntese representativa dos atributos identitários de cada indivíduo, tanto na dimensão pessoal, através da própria consciência e das concepções pessoais que o indivíduo realiza de si mesmo — do seu “Eu Verdadeiro” —, quanto na dimensão social, enquanto conjunto dos reflexos intersubjetivos ou das percepções coletivas que os outros são capazes de atribuir à noção de identidade de cada indivíduo.

Além disso, em “The Gender of the Gift” (O Gênero da Dádiva), a antropóloga britânica Marilyn Strathern também contribui com algumas noções interessantes sobre o conceito de “Pessoa” a partir da concepção de que todo Ser Humano é um ser “dividual”, o qual constitui-se e realiza-se a partir das relações constantes e ambíguas entre o meio social e sua própria subjetividade. Para Strathern, a “Pessoa” seria então uma propriedade simbólica resultante desta relação, relacionada com a dimensão da realização subjetiva e “pessoal”, a qual revela-se ao coletivo social e busca o reconhecimento de si mesma através das interações ou das ações interpessoais.

A pessoa, ele ou ela, é construída da perspectiva das relações que a constituem; ela as objetifica, sendo assim revelada por essas relações. O agente é construído como aquele, ou aquela, que age em virtude dessas relações, sendo revelado, ou revelada, por suas ações. Se uma pessoa, encarada do ponto de vista de suas relações com outros, é um agente, o agente é a pessoa que empreendeu a ação tendo em consideração aquelas relações.” (Marilyn Strathern)

Apesar de que estas concepções de Strathern implicam também na necessidade de que se adote uma perspectiva específica para a observação dos conceitos — fundamental para separar a noção de “agente social” da noção de “Pessoa” durante cada análise —, ainda assim elas permitem compreender melhor a condição ambígua ou “dividual” do Ser Humano enquanto uma pessoa individual ou um ser social. Através destas concepções, fica evidente também a condição ambígua da Identidade humana: A Identidade Pessoal (o Eu Verdadeiro) e a Identidade Social (As percepções coletivas).

Outras teorias que contribuem para ampliar as noções acerca das influências dos processos de “entrelaçamento simbólico” na formação das Identidades individuais nos ambientes sociais, foram desenvolvidas pelo antropólogo estadunidense Roy Wager, que, através de estudos acerca das dinâmicas da cultura humana, percebeu a existência de formas bastante peculiares de representação cultural a partir de análises que realizou sobre seus trabalhos etnográficos entre os povos Daribi, da Nova Guiné. Em suas teorias, onde investiga o processo de constituição da cultura humana a partir das formas sociais de “simbolização”, Roy Wagner afirma que o principal elemento de uma cultura é a própria relação entre seus símbolos e os indivíduos, pois esta relação é o que determina o momento e o modo com o qual o conteúdo simbólico torna-se então um significado, um elemento ativo de formação ou de transformação cultural para cada indivíduo. Para Wagner, o significado de um símbolo é inexistente em uma realidade absoluta, externa e independente do campo de possíveis relações entre estes símbolos, e a lógica de simbolização pode assumir tanto uma forma convencional quanto diferenciante: na forma convencional, o símbolo possui um significado social, instituído e compartilhado de forma “óbvia” e comum entre os indivíduos conhecedores daquela cultura. Na forma diferenciante, o significado torna-se uma tradução particular, metafórica e única de cada indivíduo, uma “invenção”.

As simbolizações convencionais são aquelas que relacionam-se entre si no interior de um campo de discurso (contexto) e formam ‘conjuntos’ culturais como sentenças, equações, kits de ferramentas, trajes completos ou ruas de uma cidade. Elas generalizam ou coletivizam por meio de sua capacidade de conectar signos de uso comum em um padrão único. … Assim, um contraste contextual — entre o contexto simbólico articulado por signos e o contexto de fenômenos aos quais esses signos se referem — é uma característica da simbolização convencional toda vez que esta ocorre. … Quando um símbolo é usado de modo não convencional, como na formação de uma metáfora ou um tropo de alguma outra ordem, um novo referente é introduzido simultaneamente com a nova simbolização. Uma vez que nem significante nem significado pertencem à ordem estabelecida das coisas, o ato de simbolização só pode ser referido a um evento: o ato da invenção no qual forma e inspiração passam a figurar uma à outra.” (Roy Wagner p. 122-123).

Para Wagner, as estruturas sociais erigidas a partir dos processos de simbolização convencional são o fundamento da existência de uma determinada cultura, e estas estruturas fundamentais, por sua vez, fornecem as bases culturais elementares que possibilitam a existência da simbolização diferenciante, a qual, de acordo com ele, está associada à natureza criativa, transformadora e inventiva dos indivíduos e da sociedade. Estas noções de Wagner sobre os fundamentos do processo de desenvolvimento da cultura humana sugerem a maneira com que a dinâmica dos elementos culturais podem influenciar na constituição dos “entrelaçamentos simbólicos”, e permitem também um melhor entendimento da maneira com que a constituição das identidades individuais ocorre nos ambientes sociais através dos processos de simbolização e dos próprios “entrelaçamentos simbólicos”.

Portanto, os processos de simbolização sugeridos por Roy Wagner exemplificam os principais modos — cognitivos e conscientes — com que os seres humanos são capazes de traduzir ou de interpretar os fenômenos e os elementos da realidade. Assim, sempre que uma nova “unidade cultural” é elaborada ou assimilada a partir dos processos de simbolização convencional ou diferenciante, pode-se considerar que houve um fenômeno subjetivo com potencial de influenciar na formação identitária do indivíduo que os promoveu. Em sua teoria, Wagner elabora também o conceito de “Pessoa Fractal”, a qual possibilita maior compreensão da dinâmica da identidade individual nas sociedades contemporâneas. Em uma descrição simples, pode-se considerar a “Pessoa Fractal” um indivíduo humano, ou qualquer entidade, simbólica ou material, criada, desenvolvida e multiplicada em determinada sociedade a partir dos processos de simbolização convencional.

Percebe-se, desta maneira, que a noção de “Identidade” também refere-se sempre a ideia de “unidade” — símbólica ou cultural, simples ou composta a partir da combinação de aspectos variados —, à qual a própria “Identidade” pode representar através da sua capacidade de tradução e de síntese destes aspectos, objetivos e subjetivos (físicos e metafísicos) que constituem ou que se atribui a um determinado indivíduo ou a qualquer outro elemento e fenômeno da realidade. Conforme observado, nos indivíduos humanos, a “personalidade”, constituída principalmente a partir das características comportamentais, ou seja, pelos reflexos do seu comportamento diante da sociedade — que por sua vez pode ser influenciado pelo humor e pela natureza moral de seus atos e de suas escolhas —, pode ser a origem e ao mesmo tempo a representação de numerosos aspectos identiários. A natureza moral dos atos e das escolhas, no entanto, é um aspecto subjetivo e metafísico condicionado pelos contextos históricos e sócio-culturais.

É importante descrever aqui a maneira com que relacionam-se os processos de “simbolização” sugeridos por Roy Wagner e a noção de “entrelaçamentos simbólicos” que se propõe. Os processos de “simbolização” — convencional ou diferenciante —, conforme sugere Roy Wagner, ocorrem no momento em que um indivíduo realiza a associação, a interpretação, a tradução ou a assimilação de um determinado elemento cultural em um dos seus contextos cognitivos: o coletivo “convencional”, ou o singular “diferenciante. Porém, um processo de “simbolização” pode ocorrer quando o indivíduo promove a associação simbólica entre um elemento cultural da realidade objetiva e outro elemento cultural que, naquele momento da simbolização, pertença apenas à dimensão subjetiva deste indivíduo (ou seja, um elemento que já tenha sido interpretado ou assimilado pelo indivíduo em um momento anterior), e que portanto já pertença a um de seus contextos cognitivos — e desta maneira o processo de “simbolização” proposto por Roy Wagner assemelha-se ao que então sugiro chamar de "entrelaçamento simbólico" —, mas também os processos de “simbolização”, o convencional e o diferenciante, podem ocorrer, conforme sugere Roy Wagner, através da associações exclusivamente subjetivas entre unidades ou elementos culturais que já tenham sido assimilados em momentos anteriores ou em contextos espaço-temporais distintos:

Todo pensamento, ação, interação, percepção e motivação humana pode ser entendida como uma função da construção de contextos, lançando mão das associações contextuais de elementos simbólicos (semióticos). Como toda ação desse tipo — eficaz ou ineficaz, boa ou má, ‘correta’ ou ‘incorreta’ — se desenvolve mediante construções sucessivas, sua geração pode ser descrita como ‘invenção’ ou ‘inovação’.” (Roy Wagner p.121).

Percebe-se, então, a necessidade desta distinção entre um processo de “simbolização” e o “entrelaçamento simbólico”, pois enquanto um “entrelaçamento simbólico” ocorre apenas mediante uma relação entre o indivíduo e a realidade objetiva, um processo de “simbolização” pode ocorrer de forma exclusivamente subjetiva. É importante destacar também que o processo de simbolização diferenciante, conforme proposto por Roy Wagner, depende do processo de simbolização convencional, pois para realizar a simbolização diferenciante, o indivíduo recorre a elementos culturais já simbolizados anteriormente por ele na forma convencional.

Assim, um “entrelaçamento simbólico” ocorre quando o indivíduo realiza qualquer um dos processos de simbolização a partir de elementos perceptíveis de forma exclusivamente objetiva, ou seja, através da associação simultânea entre elementos culturais distintos que encontram-se no mesmo momento em um mesmo contexto físico e perceptível pelo indivíduo, ou ainda entre um elemento cultural perceptível de forma objetiva no contexto físico e outro elemento cultural subjetivo. Portanto, um “entrelaçamento simbólico” é sempre condicionado pela realidade do contexto objetivo, portanto, pode ocorrer apenas quando o indivíduo encontra-se em um contexto onde seja possível associar ou relacionar os elementos que serão simbolicamente “entrelaçados”. Através dos “entrelaçamentos simbólicos”, conforme as intencionalidades e os tipos de simbolização utilizadas pelo indivíduo durante a realização do entrelaçamento, também pode ser “descoberta”, “inventada” ou “criada” uma nova unidade cultural, e é deste modo que os processos de simbolização convencional e simbolização diferenciante propostos por Roy Wagner contribuem durante a realização dos “entrelaçamentos simbólicos”.

A forma com que cada indivíduo realiza os “entrelaçamentos simbólicos”, da mesma maneira que ocorre com os processos de simbolização diferenciante, é também única e singular, pois depende da perspectiva, da intencionalidade e das capacidades de observação, de percepção e de interpretação de cada indivíduo. Além disso, tanto os processos de simbolização quanto os processos de “entrelaçamento simbólico” podem ocorrer entre poucos ou vários elementos culturais simultâneamente, conforme as possibilidades oferecidas por cada contexto e as capacidades e intencionalidades de cada indivíduo.

Para ampliar a compreensão acerca do processo de “entrelaçamento simbólico”, é possível descrever um exemplo prático de situação onde pode ocorrer: quando um indivíduo observa uma paisagem campestre e ali identifica um animal selvagem qualquer, fará uma associação subjetiva destes “elementos culturais” (a paisagem e o animal), e tal associação, realizada através dos seus processos mentais de simbolização convencional ou diferenciante, resultará no “entrelaçamento simbólico” destes elementos para tal indivíduo. Ou seja, o fato de ambos os elementos terem sido presenciados ou percebidos de forma objetiva em um mesmo contexto espaço-temporal, permitiu que estes fossem entrelaçados de forma simbólica pelo indivíduo. Porém, poderia ocorrer ainda de o indivíduo associar apenas um destes elementos (o animal ou a paisagem) com qualquer outro elemento cultural constitutivo de sua subjetividade ou contexto cognitivo, o que também resultaria em um “entrelaçamento simbólico”. Assim, é possível distinguir duas variações do processo de "entrelaçamento simbólico”: O “entrelaçamento simbólico objetivo”, que ocorre quando dois (ou mais) elementos são entrelaçados simbolicamente a partir da percepção de uma relação objetiva entre eles (ou seja, da percepção objetiva destes elementos em um mesmo contexto espaço-temporal), e o “entrelaçamento simbólico subjetivo-objetivo”, quando os elementos são entrelaçados simbolicamente a partir da associação entre um (ou vários) elementos imediatamente perceptíveis em um contexto da realidade objetiva, e outro elemento ou contexto cultural subjetivo do indivíduo. Percebe-se, novamente, que o “entrelaçamento simbólico” apenas é possível porque os indivíduos humanos são dotados das capacidades perceptivas e associativas que os permitem realizar a “simbolização” (as traduções, interpretações e associações entre elementos e contextos culturais), e também quando é possível a percepção de um elemento cultural a partir da realidade objetiva.

Assim, as capacidades estéticas e cognitivas — para perceber, compreender e interpretar os aspectos e características próprias de cada elemento ou fenômeno, natural ou cultural —, e as intencionalidades de cada indivíduo, influenciam também no modo ou na intensidade com que os “entrelaçamentos simbólicos” são realizados. Um outro exemplo prático de situação onde o “entrelaçamento simbólico” pode ocorrer é quando um indivíduo assiste a um anúncio publicitário na TV, e, naquele momento, através dos processos mentais de simbolização convencional ou diferenciante, pode então relacionar, de modo simbólico, o produto anunciado com a marca exibida no anúncio, produzindo assim o “entrelaçamento simbólico” destes elementos à sua própria maneira. Neste exemplo, o anúncio de TV pode ser considerado o contexto, juntamente com o momento e o lugar onde o indivíduo estava quando o assistiu. Durante os processos de “entrelaçamento simbólico”, portanto, o indivíduo pode criar associações subjetivas entre os valores ou aspectos de diferentes elementos que percebeu em um mesmo contexto. A noção de “entrelaçamento simbólico” sugere, desta maneira, que estes elementos (ou valores culturais formados por um conjunto de elementos culturais) associados em determinado momento, poderão permanecer assim relacionados ou “entrelaçados” de forma simbólica e subjetiva para aquele indivíduo durante toda sua vida, de modo que quando o indivíduo tiver acesso a um dos elementos ou valores “entrelaçados” em um momento posterior ao de realização do “entrelaçamento”, poderá novamente associá-lo aos demais elementos e valores que foram “entrelaçados” anteriormente (incluindo percepções, sensações e emoções) através das suas capacidades estéticas, memorativas, cognitivas e associativas. Este fenômeno faz com que um indivíduo sejam capaz de “lembrar” de um produto ao visualizar apenas a marca do fabricante do produto, por exemplo.

É possível pensar que o processo de “entrelaçamento simbólico” assemelha-se ao processo de simbolização convencional quando os elementos culturais em questão são associados entre si a partir da relação que estes estabelecem com o mesmo contexto, mas os processos diferem quando percebe-se que durante a realização de um “entrelaçamento símbólico”, o indivíduo é capaz de criar a sua própria maneira de associação entre os elementos de forma singular ao recorrer ao processo de simbolização diferenciante para produzir esta associação. Os processos de simbolização — convencional ou diferenciante — são portanto os recursos “associativos” que possibilitam o fenômeno de “entrelaçamento simbólico”, e os “entrelaçamentos simbólicos”, por sua vez, influenciam posteriormente nos processos de simbolização, pois cada “entrelaçamento símbólico” realizado, é armazenado na memória do indivíduo e ali pode permanecer, enquanto valor cultural subjetivo, estável ou passível de releitura e de reinterpretação, e deste modo, ao serem acumulados e permanecerem na memória, os “entrelaçamentos simbólicos” contribuem de forma direta na constituição dos valores, das unidades e dos contextos culturais subjetivos utilizados durante os processos de simbolização convencional e simbolização diferenciante.

Os “entrelaçamentos simbólicos” a partir dos elementos objetivos são possíveis porque os processos do desenvolvimento mental humano também ocorrem a partir de relações associativas entre os elementos percebidos, conforme sugerido pelo filósofo francês René Descartes, que contribuiu com a emancipação do conhecimento humano através da fundamentação teórica que estruturou o modo de pensamento científico construído com base em um método lógico e confiável. Sua máxima “Penso, logo existo”, publicada originalmente em sua obra “Le Duscours de la Méthode” (Discurso sobre o Método), sintetiza o princípio do raciocínio lógico, uma forma humana de pensar, na qual privilegia-se a autoridade da razão para conduzir o pensamento de maneira lógica, recurso absolutamente necessário e essencial para a construção e o desenvolvimento do conhecimento científico humano. A maneira de estruturação do pensamento lógico de Descartes tem referência em antigos conceitos da Mnemotécnica, considerada uma forma de “arte” (no sentido aristotélico) do pensamento, a qual prescreve métodos para adicionar ordem e disciplina aos pensamentos a partir da criação de categorias e de hierarquias conceituais de forma análoga à mesma lógica observada em fenômenos e atividades naturais e pragmáticas vivenciadas pelos seres humanos.


CONCLUSÃO


Assim, ao compreender a influência dos processos de “entrelaçamento simbólico” no desenvolvimento da subjetividade humana, a noção de Identidade individual é também melhor compreendida enquanto um valor ou elemento cultural, simbólico e representativo da pessoa humana, que varia e transita entre as dimensões subjetivas e objetivas conforme as relações que os indivíduos estabelecem entre si ou conforme as relações que os indivíduos estabelecem com os demais elementos e fenômenos de cada contexto. Novamente, percebe-se que a influência dos contextos, históricos e sócio-culturais, aparece enquanto aspecto da realidade determinante na constituição das Identidades dos indivíduos.

Após compreender também os processos de simbolização convencional e diferenciante, e a dialética enquanto modo “universal” de constituição dos contextos ou das realidades sociais — considerando a noção de “realidade social” enquanto um conjunto de aspectos físicos e simbólicos (infraestrutura material, elementos e dinâmicas culturais, etc) que caracterizam determinado tempo e espaço da manifestação humana —, é possível ter um entendimento mais amplo também das maneiras com que cada um destes contextos da realidade social é capaz de sugerir determinadas formas de “entrelaçamentos simbólicos”, que por sua vez, conforme a personalidade, as intencionalidades, predisposições e afinidades de cada indivíduo, estimulam as “apropriações identitárias”, atitudes intencionais, subjetivas ou objetivas, caracterizadas pelas representações ou pelos atos simbólicos que, interiorizados de forma individual ou externamente refletidos aos outros no mundo social em função do tempo, podem contribuir simultaneamente com a constituição da personalidade e com a caracterização da identidade de cada indivíduo, na dimensão pessoal ou no meio social.

Outras teorias que permitem uma análise da variabilidade dos fenômenos sociais em diferentes contextos podem contribuir para ampliar ainda mais a compreensão acerca da maneira com que os processos de simbolização e de “entrelaçamentos simbólicos” também variam conforme o contexto. Por exemplo, o historiador e filósofo alemão Georg Simmel, que em “Die Großstädte und das Geistesleben” (As grandes Cidades e a Vida do Espírito) faz uma análise das transformações do comportamento humano ao comparar os modos de vida na Era Medieval e na Era Moderna, sugere que, apesar de as estruturas sociais das grandes metrópoles serem ordenadas em um sistema temporal fixo e suprasubjetivo, a saturação populacional, a aceleração e a padronização do ritmo das atividades humanas, somadas ao aumento quantitativo e qualitativo dos estímulos e de informações aos quais os indivíduos submetem-se nestas metrópoles, podem promover “consequências psíquicas individuais imprevisíveis” em virtude de um possível constante estranhamento da própria condição humana. Estas consequências psíquicas podem ser relacionadas, portanto, aos modos, frequências e intensidades com que os indivíduos submetem-se aos processos de simbolização e de “entrelaçamentos simbólicos” nestes contextos, e assim influenciam de forma direta na constituição de suas Identidades.

Este ensaio investiga aspectos dos fenômenos de “entrelaçamento simbólico” que influenciam principalmente sobre os processos de formação da Identidade dos indivíduos humanos, porém, as noções investigadas aqui permitem compreender também a maneira com que desenvolve-se e que atribui-se a noção de identidade para outros elementos (seres, coisas e objetos) e fenômenos, naturais ou artificiais. É importante considerar também que este ensaio pode revelar uma perspectiva de análise que privilegia os principais fundamentos ontológicos antropocentristas da civilização ocidental, enquanto formas de compreensão e de representação do mundo centradas na figura humana, porém, é possível ampliar esta investigação ao adotar outras perspectivas ontológicas não-antropocentristas e englobar teorias que considerem estudos acerca de outras espécies, ou ainda de outras características e dimensões das relações entre o ser humano e a realidade.

 


 

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