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Cenário do filme Blade Runner

 

A PERFORMANCE HUMANA
por Eduardo Galvani
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Neste ensaio, proponho uma análise contemporânea da condição humana a partir do paradoxo existencialista de afastamento e de aproximação entre o ser humano e a sua natureza em função do materialismo histórico. O texto tem por principais inspirações teóricas o filme Blade Runner, de Ridley Scott, o clássico conto Frankstein, de Mary Shelley, e o texto Antropologia do Ciborgue - As Vertigens do Pós-Humano, de Donna Haraway, Hari Kunzru e Tomaz Tadez.

Em primeiro lugar, gostaria de observar alguns aspectos interessantes do filme. Com roteiro de Hampton Fancher e David Peoples, inspirado no romance Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick, protagonizado por Harrison Ford e dirigido por Ridley Scott, Blade Runner é uma ficção científica romântica, narrada em ambiente futurista, onde as tecnologias dominadas naquele momento tornam possível a coexistência de diversos seres com tipos de consciência distintas, e aparentemente evolutivas, enquanto aguardam por uma nova realidade.

O longa retrata uma civilização onde parece operar um tipo de estrutura social holística e hierarquizada, com instituições responsáveis por identificar, caçar e punir indivíduos considerados “replicantes”, que adotam atitudes controversas em relação ao que normalmente se esperaria em situações específicas. Esta civilização, retratada em Blade Runner, demonstra ainda a existência de um esforço coletivo no sentido de extinguir determinadas diferenças, e sugere a predominância de um tipo de macro-consciência qualificadora dos seres, que regula o funcionamento de um sistema amplo e complexo.

Ali, parece que a sociedade existe em função de uma busca por "seres perfeitos", em algum sentido, evidenciada em determinado momento em que a narrativa pressupõe inferioridade dos indivíduos que optam por permanecerem desligados das instituições reguladoras, e que, por serem livres e recusarem de alguma maneira a realidade onde estão inseridos, são impulsionados pela ânsia de descoberta da sua própria origem e de destruição de seu criador, revelando a angústia de viverem sem objetivo comum, ao transitar entre dor, medo e prazer, atendendo a desejos exclusivamente individuais, enquanto permanecem em constante fuga da morte, a qual representaria o fim eterno do seu estado de consciência.

Uma das questões centrais a se observar em Blade Runner, é se a história baseia-se em uma ideia durkheiniana de sociedade, positivista, pós-moderna, onde criar e modificar seres vivos a partir de manipulações genéticas torna-se, em determinado momento, uma possibilidade real e aceitável em virtude do avanço gradativo na descoberta e na aplicação de novas tecnologias, e do desenvolvimento do senso ético, ou se a narrativa teria sido desenvolvida para metaforizar uma concepção de realidade na qual os seres experienciam um estado de consciência criativa do tipo panóptica, onde as experiências vivenciadas por eles seriam mera decorrência da sua própria imaginação e interpretação dos acontecimentos.

Em Antropologia do Ciborgue - As Vertigens do Pós-Humano, também é possível perceber a tradução da realidade a partir de um ponto de vista ambíguo, ora em um plano cartesiano, onde o mundo seria um ambiente controlado por um conjunto de forças que atuam sobre os seres e condicionam em alguma medida suas noções básicas da existência objetiva, para o constante aprimoramento das percepções corporais e subjetivas, experimentadas de forma exclusiva por cada um, ora por uma visão pós-moderna, de ordem fenomenológica, onde o meio material seria produzido por um fenômeno que podemos considerar provisoriamente por uma profusão quântica de subjetividades, a fim de possibilitar o convívio em rede entre variadas formas de vida e infinitas modalidades de troca entre elas.
Parece que, em Antropologia do Ciborgue, a percepção imediata e as memórias perceptivas, em função da materialidade histórica representada no espaço, regula um tipo de relação ubíqua e dialógica entre os organismos vivos, o ambiente natural e os artefatos humanos, em toda sua inumerável variedade, e que esta constante relação resulta em seres com diferentes níveis de evolução perceptiva, desenvolvidas em adequação às experiências singulares vivenciadas e acumuladas para sempre em suas memórias genéticas.

O modo de desenvolvimento do organismo humano foi mapeado pela ciência psicanalítica moderna em uma sequência simples de três fases; oral, anal e genital, e representa, desde o nascimento, a ordem de início dos estímulos em cada região do corpo, o qual existe em permanente relação com a realidade através dos estados consciente, pré-consciente e sub-consciente, estes considerados estágios da objetividade e da subjetividade humana, e em algumas vertentes filosóficas, a própria energia constitutiva do corpo físico material.

Um olhar paralelo aos avanços no conhecimento de biologia e da física quântica, permite hoje maior compreensão de uma realidade ubíqua, regida sob aspectos metafísicos, e sugere que estes diferentes níveis de controle do desenvolvimento animal seriam fruto de determinações da própria consciência em função de fatores externos.

O texto de Haraway, Kunzru e Tadez demonstra ainda que a busca pela explicação filosófica da verdadeira condição humana parece emergir quase sempre da polarização sexual, inerente à natureza da espécie, e muitas vezes motivada por visões críticas da condição histórica do sexo feminino, de suposta subordinação ao homem, denunciada de forma mais evidente na estrutura do universo cosmológico social ocidental pela predominância de reflexos do pensamento patriarcal.

Os movimentos feministas estudados por Donna Haraway, demonstram que esta polarização parece ter origem em uma crise identitária, fruto de uma aparente relação paradoxal, de amor e ódio, pela própria condição, e negam que a construção da consciência feminina deva estar subjugada ao estado supostamente inferior do seu organismo natural. Entretanto, parece que o conceito ocidental moderno de mulher teria sido construído ao longo da História com base em elementos condicionantes da natureza do seu próprio comportamento e corpo; enquanto as funções regulares do seu organismo as manteriam ocupadas em determinadas funções sociais (gravidez e amamentação, por exemplo), logicamente as excluiriam de outras funções que teriam sido ocupadas pelos homens.

Em Frankstein, a história também demonstra que um tipo de consciência polarizada, entre amor e ódio, é constituída em um monstro artificial a partir das experiências resultantes das situações vivenciadas por ele em busca da sua plenitude sexual. No romance gótico de Mary Shelley, o monstro pós-humano é concebido pelo profundo conhecimento das ciências naturais de seu criador.

A aventura do monstro e do pequeno cientista autodidata é contada a partir de uma troca de cartas entre o personagem capitão Watson e sua irmã, simulando uma história dentro de outra, e revelando o que talvez pudesse ser considerada uma alegoria da própria condição humana, onde o conhecimento tecnológico e os recursos materiais estariam pré-dispostos a dar vida ao inconsciente subjetivo.

Tanto em Antropologia do Ciborgue, Frankstein e Blade Runner, ao questionar a verdadeira origem das motivações individuais dos seres, podemos vislumbrar a construção de subjetividades em plano cartesiano, mediadas pelas leis naturais atuantes no ambiente, e, ao mesmo tempo, pressupor uma realidade metafísica e (i)material que seria apenas reflexo da proeminência de suas ideias.

As três ideologias parecem refletir aspectos de uma tradução pós-moderna da existência humana, onde o corpo seria a representação física real de um estado de subjetividade, em constante processo dialógico de desenvolvimento mútuo com o meio, onde os avanços da tecnologia podem influenciar nas transformações físicas e subjetivas dos seres e do ambiente externo, e estas transformações, em outro sentido, influenciam de forma direta na constituição de seus corpos e subjetividades.

Entretanto, qualquer que seja o motivo a impulsionar estas forças criativas e transformadoras da espécie humana, a ciência afirma que estas capacidades de adquirir e transmitir conhecimento, e de desenvolver tecnologias complexas para transformação do mundo natural, é exclusividade do ser humano, de modo que é possível perceber na grande maioria das colônias humanas características que as diferem das colônias de outros tipos de animais. Embora teorias evolucionistas afirmem que antepassados humanos habitaram em cavernas, e existam registros contemporâneos de tribos e comunidades humanas que reproduzem modos de vida bastante simples e rústicos, ao analisar uma imagem de satélite onde seja possível observar qualquer grande metrópole, é logo perceptível que as áreas urbanas mais densas diferem bastante de todo o entorno natural composto apenas por florestas.

Qualquer que seja o modo pelo qual a existência e a força transformadoras se tornam possíveis, é fácil identificar nos personagens humanos (e não humanos) uma síntese de aspiração à plenitude e satisfação individual pela via da estética sexual, em função da procriação, talvez, revelando o que seria seu instinto mais fundamental, o de garantir a multiplicação e a perpetuação da própria espécie.

Enquanto em algumas interpretações do materialismo histórico de Karl Marx a alienação causaria o afastamento entre o ser humano e a sua natureza, Blade Runner, Frankstein e Antropologia do Ciborgue parecem argumentar de um ponto de vista onde a materialização alienada da cultura humana seria um fenômeno movido por interesses de ordem sexual, porém paradoxal, que atua através do ser humano em sentidos tanto de aproximação quanto de afastamento deste com a sua realidade natural. Ou seja, se o constante desenvolvimento tecnológico e acúmulo material, derivados dos avanços tecnológicos e de produção, sugere um afastamento entre a subjetividade humana e sua natureza orgânica, terrestre e material, ao mesmo tempo, este fenômeno permite também a emancipação e a aproximação gradativas de suas capacidades e naturezas subjetiva, expressiva e criadora.

Em Antropologia do Ciborgue, esta polaridade consiste justamente em perceber a realidade de ambas as perspectivas ao mesmo tempo: De um lado, o afastamento entre o humano e sua origem material através do potencial abstracionista da ilusão cosmológica cultural, e de outro, a aproximação entre ambos através dos avanços tecnológicos que permitem a ampliação dos potenciais de imersão na realidade tangível, natural ou artificial. Porém, o que, por enquanto, se apresenta em um aparente paradoxo, pode ter tido origem em algum "ponto de mutação", quando algum antepassado humano, enquanto animal irracional, teria descoberto suas capacidades abstracionistas, criativas, habilidades técnicas especiais e se tornado racional, capaz de manipular a realidade de formas até então inéditas — o domínio do fogo, por exemplo —, e ainda desenvolver linguagens e transmitir seu conhecimento. Descobrir por quê, de que modo, onde, e em que momento isto ocorreu, representa um desafio para a ciência moderna.

Na teoria evolucionista de Darwin, onde a capacidade de adaptação das espécies representa a garantia de sobrevivência dos mais aptos, parece não haver um ponto específico de ruptura entre os seres irracionais e os racionais, mas é dali que emergem elementos que reforçam a tese de que a origem da ânsia competitiva do homem, de multiplicar a si próprio em escalas cada vez maiores, seria também um dos principalis estímulos de expansão da sociedade industrial capitalista, e fruto, talvez, da vontade de onipresença, oniciência e onipotência, ou de um desejo transcedental ainda não compreendido.

Uma avaliação do desenvolvimento histórico humano permite observar a evolução da sua consciência em conformidade à evolução e ao entendimento da composição e das funções do próprio corpo. À medida em que as sociedades se desenvolvem e observam seu próprio desenvolvimento, podem entender melhor as origens e as consequências de sua trajetória histórica, dos seus próprios movimentos. Os reflexos deste desenvolvimento podem ser observados nas transformações sócio-culturais, mais evidentes no materialismo, nas gradativas inovações tecnológicas, desde os primeiros objetos rudimentares, criados na pré-história, até as roupas e acessórios contemporâneos, de utilidade específica ou geral, objetiva ou subjetiva, e em uma realidade complexa, onde ferramentas e máquinas facilitam ou substituem o trabalho manual e intelectual dos homens. E ainda nos carros, aviões, satélites e naves espaciais, tripuladas ou não, que permitem ampliar cada vez mais o alcance do conhecimento humano, e consequentemente, a evolução da consciência da própria condição humana.

O corpo humano é constituído por elementos orgânicos e estruturas moleculares semelhantes aos que constituem o corpo das outras espécies animais. As diferenças básicas entre o humano e as outras espécies aparecem nas formas e nas funções dos próprios corpos, mas a principal diferença aparece na própria consciência de sua diferença, ao perceber sua capacidade de compreender e transformar a própria realidade em escalas bastante superiores às transformações realizadas pelas outras espécies. A partir do momento que o humano aprendeu a observar sua própria natureza e comparar fenômenos, passou a compreender melhor sua realidade, e pôde então expandir e organizar os campos do conhecimento em função das suas próprias necessidades.

Esta análise restringe-se ao campo da performance humana, porém, ao olhar os limites que definem onde inicia e termina a vida (minerais também vivem), poderíamos usar por base os complexos estudos científicos que associam o aceleramento das transformações climáticas do planeta com determinadas atividades humanas, nos fazendo perguntar se estaríamos sendo os principais causadores das principais transformações globais, e, por consequência, estimulando mudanças em todas as espécies de seres vivos, ou, se estaríamos sendo apenas estimulados por elas.

Se para a ciência psicanalítica, o sonho seria resultado da performance humana no mundo do inconsciente subjetivo, formulado de maneira desconhecida e influenciado pelas experiências singulares vivenciadas no mundo físico real pelo indivíduo, a experiência real e imediata de performance consciente constitui o momento em que "o humano é o que percebe, e o que percebe constitui o humano".


 

© 2013 Eduardo Galvani.
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